Inundação da Várzea do Carmo – Benedito Calixto

Inundação da Várzea do Carmo, 1892, Benedito Calixto

Inundação da Várzea do Carmo, 1892, Benedito Calixto (Pintor Brasileiro, 1853-1927), 125 x 400 cm (49.21 × 157.48 in), Museu Paulista/USP (“Museu do Ipiranga”), São Paulo, Brasil

Dirigindo em São Paulo debaixo de um grande temporal, e tendo que encontrar vias alternativas por causa dos alagamentos, me lembrei da tela acima.

No final do século dezenove e início do século vinte, Benedito Calixto (1853-1927) foi um dos poucos pintores que se dedicaram a estudos de reconstituição da São Paulo antiga, usando para isso trabalhos anteriores de artistas viajantes. Porém, neste caso, a imagem é fruto de observação direta, em 1892, quando a várzea do Carmo, na capital paulista, sofreu uma enchente. A obra, que merece destaque no “Museu do Ipiranga”, tem tamanho e escopo excepcionais, sendo considerada uma das peças mais importantes da iconografia paulistana no final do século dezenove.

Detalhe: Inundação da Várzea do Carmo, 1892, Benedito Calixto

Em Inundação da Várzea do Carmo observamos…

A presença fluvial em uma paisagem urbana com dimensões de pintura histórica. O artista descreve minuciosamente a época de cheia da Várzea do Carmo, indicando o cotidiano do rio na cidade de São Paulo. O formato panorâmico evidencia a amplitude da cidade, demonstrando detalhes de seu horizonte urbano e paisagístico (…). Calixto faz com que o rio, um motivo cotidiano, frequentemente representado em pequenos suportes, aqui adquira a importância de personagem histórico do diálogo com a cidade. (OLIVEIRA, Helder Manuel Silva. In: Castagneto e o contexto artístico paulista do século XIX. Cf. aqui).

Detalhe: Inundação da Várzea do Carmo, 1892, Benedito Calixto

Recomendo acessar também o livro Pintores paisagistas: São Paulo, 1890 a 1920, por Ruth Sprung Tarasantchi, formato e-book.

15 de novembro: a solução militarista – Emília Viotti da Costa

15 de novembro de 1889 - Proclamação da República, 1893, Benedito Calixto

15 de novembro de 1889 – Proclamação da República, 1893, Benedito Calixto (1853-1927), óleo sobre tela,123.5 × 198.5 cm (48.62 × 78.15 in), Pinacoteca de São Paulo, Brasil

A solução militarista, que sempre se impõe nos países em que a massa não se acha suficientemente consciente da sua força revolucionária e dos objetivos a serem alcançados, surgiu em 1887, quando a chefia do partido começou a cogitar seriamente das possibilidades de recorrer ao exército para derrubar o regime e instalar a República.

[…] A Questão Militar era habilmente explorada pelos republicanos que não se cansavam de acirrar o ânimo dos militares contra o governo, assegurando-lhes ao mesmo tempo todo o apoio. […] O rumo tomado pela Questão Militar e a impaciência de alguns líderes republicanos provocaram novos encontros entre os dois setores descontentes e desse contato surgiria o golpe de 15 de novembro.

Na História da República não há apenas uma Questão Militar. Há várias questões militares que se iniciam nos fins do Império e prosseguem em nossos dias, manifestando-se, durante todo esse longo período, através de uma série de crises com profunda repercussão no plano institucional, entre as quais a proclamação da República.

[…] Generealizara-se entre os militares a convicção de que só os homens de farda eram “puros” e “patriotas”, ao passo que os civis, “os casacas”, como diziam, eram corruptos, venais e sem nenhum sentimento patriótico. Derivava dessa crença a mentalidade salvadora que transparecia claramente na célebre carta […], enviada por Floriano Peixoto ao General Neiva, em 10 de julho de 1887, a propósito da questão militar.

Os militares sentiam-se frustrados, mal recompensados, desprestigiados pelo governo. Tudo favorecia a atitude de indisciplina e revolta […].

Num país em que ainda eram escassas as oportunidades, o exército representava para as classes médias um meio de ascensão. O exército seria, sob certo aspecto, o representante das classes médias, mas envolvendo-se em questões políticas e sociais os militares não abandonavam nunca o espírito de corpo que é a base da organização militar. Por isso, conflitos que entre civis seriam de somenos pareciam, quando envolviam um civil e um militar, uma ameaça grave à segurança do país.

Os pronunciamos militares não repercutiam como manifestos comuns. Levavam sempre a marca do exército. A participação dos militares na vida pública multiplicava as ocasiões de conflitos. Com isso a situação se agravava.

Não se pense que o exército agia coeso e unânime. Havia certamente entre os militares profundas divergências, mas a adesão de uma facção de oficiais, mais ou menos importantes, às ideias republicanas foi decisiva para a proclamação da República.

Quando os civis procuraram os oficiais para tramar a conspiração e preparar o golpe, encontraram da parte deles a melhor acolhida, ligados que estavam uns e outros pelo mesmo imperativo: alterar as instituições vigentes.

O exército já manifestara apoio à causa abolicionista recusando-se a perseguir escravos fugidos. Restava proclamar a República. O clube militar foi, a partir de então, o principal núcleo de conspiração. A República nasceu assim sob o signo do exército.

(COSTA, Emília Viotti. In: Da Monarquia à República: momentos decisivos. São Paulo: Editora Brasiliense, 1987, pp. 354-357)

Benedito Calixto (1853-1927)

A Fundação da Villa de Santos - 1545, Benedito Calixto

A Fundação da Villa de Santos – 1545, Benedito Calixto (Pintor brasileiro, 1853-1927), Museu do Café Brasileiro, antiga Bolsa do Café (Palácio da Bolsa Oficial do Café), Santos, São Paulo, Brasil

Ao lado de Almeida Júnior, Pedro Alexandrino e Oscar Pereira da Silva, Benedito Calixto foi um dos quatro gigantes das artes plásticas que se destacaram no cenário paulista no final de século XIX e início do século XX.

Benedito Calixto de Jesus (1853-1927) foi um pintor, desenhista, professor, historiador e astrônomo amador brasileiro. Considerado um dos maiores expoentes da pintura brasileira do início do século XX, Calixto é o que se pode chamar de um talento nato. Benedito Calixto de Jesus (1853-1927)Autodidata, começa seus primeiros esboços ainda criança, aos oito anos.

Depois de sua infância e juventude entre Itanhaém e Brotas, onde realizou diversos trabalhos artísticos, no final de 1881 mudou-se com a família para Santos, onde passou a pintar paisagens nos tetos e paredes das mansões dos prósperos comerciantes da cidade. Fez sua primeira exposição em 1881 no salão do jornal Correio Paulistano, em São Paulo, não tendo conseguido vender nenhum trabalho, mas obteve apreciação favorável da crítica.

Em 1882 foi convidado a realizar trabalhos de entalhe e pintura na parte interna do Teatro Guarany, em Santos, o que lhe rendeu homenagens e uma bolsa de estudos, custeada por Nicolau de Campos Vergueiro, o Visconde de Vergueiro, para se aprimorar em Paris, onde ficou por quase um ano e frequentou o ateliê do mestre Rafaelli e a Academia Julian. Na Europa realizou várias exposições de sucesso. Em 1884, de volta à Santos trouxe na bagagem um equipamento fotográfico e tornou-se pioneiro, no Brasil, em pintar a partir de fotografias.

Nos anos de 1886 e 87, respectivamente, nasceram seus filhos Sizenando e Pedrina. Em 1890 mudou-se para São Paulo. Sete anos depois voltou para o litoral e foi morar em uma casa construída por ele mesmo, em São Vicente. Produziu obras importantes para vários museus, entre eles o do Ipiranga, em São Paulo, para inúmeras igrejas em todo o país, para associações, fundações, instituições, a exemplo da “Bolsa Oficial do Café“, em Santos, onde uma de suas principais obras “A Fundação de Santos” ocupa uma parede inteira do salão principal, além de outras duas que também têm como tema a cidade de Santos e o vitral do teto com alegoria para os Bandeirantes. Tivemos o privilégio de visitar a antiga Bolsa do Café (Palácio da Bolsa Oficial do Café). Roberto C. Simonsen escreveu: “Esse Palácio pode ser considerado um dos mais ricos do Brasil, digno templo de sua principal riqueza e da incontestável grandeza de nosso Estado”.  

A Fundação da Villa de Santos - 1545, Benedito Calixto, detalhe

“A Fundação da Villa de Santos – 1545”, detalhe.

Durante toda a sua trajetória, Calixto produziu aproximadamente 700 obras, das quais 500 são catalogadas. Pintou marinhas, retratos, paisagens rurais, urbanas e obras religiosas. Estas últimas lhe renderam a Comenda de São Silvestre, outorgada pelo Papa Pio XI, em 1924.

Calixto faleceu de infarto, em São Paulo, na casa de seu filho, para onde tinha ido com a intenção de comprar material para terminar duas telas para a Catedral de Santos. Foi sepultado em jazigo perpétuo doado pela Prefeitura Municipal de Santos. Suas duas últimas obras são intituladas “Noé” e “Melchisedech”. Na capital do Estado, o pintor é homenageado com a Praça Benedito Calixto. Além da pintura, Calixto se revelou como historiador, escritor e fotógrafo.

Por duas vezes temos visitado a Fundação Pinacoteca Benedito Calixto, em Santos, SP. Esta é uma entidade sem fins lucrativos, localizada em um antigo casarão em estilo eclético e interior em Art Noveau à Avenida Bartolomeu de Gusmão, em Santos. Ali há uma exposição permanente de obras de Calixto. Seu acervo conta com cerca de cinquenta obras do pintor – marinhas, paisagens e retratos (alguns desenhados na Academia Julian, Paris). A Pinacoteca conta também com uma biblioteca, com acervo de livros de arte, e um Centro de Documentação sobre Calixto e sua obra.

Há uma exposição permanente “Benedito Calixto na Terra do Pinhal”, com amplo panorama da vida e obra do célebre pintor brasileiro e trabalhos originais realizados por ele para o antigo “Palácio Episcopal de São Carlos” e que hoje pertencem ao acervo da municipalidade sãocarlense. A exposição é no Museu da “Estação Cultura” na Estação de São Carlos em São Carlos, SP. Infelizmente, na última vez em que estive em São Carlos não pude visitar a exposição.