“As Respigadoras” – Jean-François Millet

A chamada Escola de Barbizon foi um movimento artístico que se sucedeu entre os anos de 1830 e 1870, integrado por um conjunto de pintores franceses que se estabeleceram próximo ao povoado de Barbizon, nas imediações do bosque de Fontainebleau, deixando Paris, numa atitude de aberta oposição ao sistema vigente. Os pintores de Barbizon integram o Realismo pictórico francês, reagindo ao formalismo do Romantismo, como aquele da pintura de Eugène Delacroix, e ao Academicismo. Os pintores de Barbizon buscavam sua inspiração diretamente na Natureza.

Alguns pintores de Barbizon foram além da ideia original, incluindo figuras em suas paisagens, como personagens da vida campestre e de seu trabalho. Jean-François Millet (1814-1875), um dos fundadores da Escola de Barbizon, destaca-se por suas obras sobre camponeses, nas quais retrata o cotidiano rural. Consideradas sentimentais ou piegas por alguns, tais obras manifestavam a integração do homem com a natureza. Em rigor, para Millet era mais importante o homem que o cenário natural. A ênfase não era posta em qualquer dramaticidade, ou em denúncia social, mas na constatação da realidade.

The Gleaners, 1857, Jean-François Millet

The Gleaners, 1857, Jean-François Millet (French Realist Painter, 1814-1875), Oil on canvas, 83.5; 110 cm, Musée d’Orsay, Paris

As Respigadoras (The Gleaners) é uma pintura a óleo por Millet concluída em 1857, e uma de suas mais famosas obras. Ele retrata três mulheres camponesas recolhendo grãos de trigo após a colheita. Nesta pintura Millet ilustra um direito concedido aos camponeses: recolher as espigas que restaram da colheita. Rute, um dos livros do Antigo Testamento, tem sua história em torno desse direito já previsto na lei mosaica.

Na tela de Millet, no primeiro plano do quadro, destacam-se as três personagens, tendo como fundo uma iluminada paisagem de campo. Duas respigadoras, curvadas para o chão, apanham as espigas que os ceifeiros deixaram para trás, e a terceira amarra o seu feixe. O espectador do quadro fica insatisfeito, pois os rostos das camponesas encontram-se obscurecidos; só se vê o perfil da última. O rosto desta é escurecido pelo sol e os traços são grosseiros. As mãos são rudes. Com a sua pincelada realista, o artista, por conseguinte, evita idealizar o seu tema. Chama a atenção para a grandeza e dignidade da tarefa executada por pessoas simples e resignadas diante de uma realidade existencial que não conseguem mudar.

No fundo iluminado, o resultado da colheita. O trigo, colhido em grande quantidade, está sendo empilhado. No canto superior direito, vê-se o senhorio supervisionando o trabalho.

Este tipo de olhar retratou com enorme significado o que eram as camadas mais baixas da sociedade rural — o que, aliás, não foi muito bem recebido pelas classes franceses mais privilegiadas.